Femama Batalhadoras. Todo dia uma vitória contra o câncer de mama. Marlí Marcon

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Cientistas realizam o maior estudo genético sobre o câncer de mama

Pesquisa identifica 72 novas mutaçõesgenéticas comuns; descoberta deve beneficiar portadoras de variantes queaumentam o risco de um tumor resistente a tratamentos

26/10/2017 - Nomaior estudo genético sobre o câncer de mama, 550 cientistas de 300instituições de pesquisa dos seis continentes encontraram mais 72 mutações queaumentam o risco da doença. Dessas, 65 são variações comuns, que predispõem odesenvolvimento do tumor, e sete referem-se especificamente a um dos tipos maisdifíceis de vencer: o câncer receptor de estrógeno negativo, que não respondeaos medicamentos hormonais. Com essas descobertas, os autores dos artigos,publicados nas revistas Nature e Nature Genetics, esperam impactar na prevençãoe no tratamento de um problema que, a cada ano, atinge mais 1,2 milhão demulheres.

Aampla pesquisa é resultado do consórcio OncoArray, uma colaboraçãointernacional de cientistas dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Austrália, doCanadá, do Chipre e da Alemanha, que tem como objetivo desvendar os mecanismosgenéticos dos cânceres mais prevalentes no mundo, como pulmão, cólon epróstata. Nas publicações de ontem, o foco foram mutações comuns, que aumentamo risco do câncer de mama.

Bastanteheterogêneo, esse tipo de tumor é causado pela combinação de fatores ambientaise genéticos. Dentro do componente hereditário, ainda há diferenças: as mutaçõesBRCA1 e BRCA2 são mais raras e conferem um risco muito alto. Enquanto isso, hádezenas de variantes comuns, que, embora numerosas, não elevam tanto as chancesda doença. Se a BRCA1 e a BRCA2 já são bem estabelecidas e estudadas,existindo, inclusive, exames para detectá-las nas pacientes, até agora não seconhecem todas as variantes comuns. Com as novas pesquisas, o número demutações identificadas passa de 105 para 177.

Paralocalizar as variantes, os pesquisadores do consórcio OncoArray analisaramdados genéticos de 275 mil mulheres, sendo que 146 mil delas haviam sidodiagnosticadas com câncer de mama. A equipe coordenada por Douglas Easton,pesquisador da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, utilizou uma novatecnologia de array genômico para comparar o DNA das participantes com e sem adoença. O teste apontou 65 novas regiões associadas à enfermidade, que, juntas,representam 18% do risco familiar de se desenvolver o câncer de mama.

Variantes

Deacordo com Douglas Easton, a maior parte das mutações detectadas não estavamdentro dos genes, mas em regiões do DNA que regulam a atividade de proteínaspróximas. Quando os pesquisadores investigaram o padrão dessas variantes,descobriram particularidades não observadas em outras doenças. “O estudoconfirmou muito do que suspeitávamos. Há alguns padrões claros nas variantesgenéticas que podem nos ajudar a entender por que algumas mulheres sãopredispostas ao câncer de mama, e quais genes e mecanismos estão envolvidosnisso”, diz Easton.

Jáa equipe coordenada por Roger Milne, do Conselho de Câncer de Victoria, naAustrália, investigou especificamente as regiões do DNA e as variantes queaumentam o risco do câncer receptor de estrogênio negativo. Milne explica quecerca de 70% de todos os casos de tumor de mama são receptores de estrogêniopositivos. Isso significa que as células cancerosas têm um receptor queresponde ao hormônio sexual feminino estrogênio.

Nemtodas as células tumorais, porém, têm essa proteína: são os receptores deestrogênio negativos. Com isso, as opções de tratamento ficam reduzidas, pois amaioria dos medicamentos hormonais para o tumor de mama trabalha no sentido deelevar os níveis dessa substância ou de impedi-la de fazer crescer o número decélulas malignas. Nos casos de receptores negativos, esses medicamentos nãofazem efeito.

Oscientistas do consórcio OncoArray identificaram 10 novos locais do genomaassociados ao risco de câncer de mama receptor de estrogênio negativo, além deencontrar sete novas mutações comuns também relacionadas à propensão aodesenvolvimento do tumor. Uma importante descoberta foi que existe uma forteligação entre o risco da mutação BRCA1 e do câncer de mama receptor deestrogênio negativo. “Uma melhor compreensão das bases biológicas desse tipo decâncer pode levar a intervenções preventivas mais efetivas e a outrostratamentos, afirmou Milne, em nota. “Essas descobertas podem melhorar apredição de risco tanto para a população em geral quanto no caso das mulheresque têm a variante BRCA1.”

Asmutações identificadas nos dois estudos são comuns, diferentemente do BRCA1 edo BRCA2. Enquanto algumas existem em uma em cada 100 mulheres, outras estãopresentes em mais da metade de toda a população feminina e, obviamente, nemtodas elas desenvolverão o câncer de mama. De forma individual, os riscosconferidos por cada variante são baixos, mas, como elas são frequentes e seusefeitos se multiplicam quando há diversas dessas mutações, o efeito combinado éconsiderável. Quando a genética é associada a outras questões hormoniais e afatores de estilo de vida, os riscos são diferentes, mesmo para pessoas com asmesmas mutações.

Varredura de mutações

Oarray genômico é o processo que examina um pedaço do DNA em uma lâmina paradetectar as diferentes variantes na sequência do genoma e, assim, identificar emapear mutações. Diferentemente do sequenciamento total de DNA, o arraygenômico tem como foco apenas as variações que um mesmo gene pode ter.

Características heterogêneas

“Ocâncer de mama é uma doença multifatorial e heterogênea: dois pacientes com amesma classificação teórica podem ter cânceres muito diferentes”, explicaMárcio Almeida Paes, da Aliança Instituto de Oncologia e membro da SociedadeBrasileira de Oncologia Clínica (Sboc) e da American Society of ClinicalOncology (Asco). “A descoberta de novos genes ajuda muito os oncologistas quelidam com isso a ter uma noção melhor do prognóstico. Do ponto de vista dotratamento, esse conhecimento dá um embasamento maior para identificar quempode ter mais ou menos benefício, pois, cada vez mais, o perfil genético dadoença é importante para a definição da base terapêutica”, avalia.

Deacordo com Jacques Simard, pesquisador do Consórcio e da Universidade de Laval,em Quebec, os resultados fornecidos pelos estudos vão ajudar a estabelecerpadrões de risco e de tratamento. “Usando dados das pesquisas genômicas ecombinando essas informações com outros fatores de risco conhecidos, vamoscompreender melhor a probabilidade de uma mulher desenvolver a doença, o queimplicará mudanças na conduta. Por exemplo, na personalização da idade em quecada uma deve fazer a mamografia. Mulheres com as mutações podem se beneficiarmais de exames de rastreamento intensivos, começar a fazê-los mais jovens ouserem indicadas a técnicas de detecção mais sensíveis. Ao mesmo tempo, essainformação personalizada vai ser útil para adaptar modalidades de exames paramulheres em risco substancialmente menor.”

Aoncologista Maria Leticia Pereira, médica do Instituto de Câncer de Brasília(ICB), porém, observa que, do ponto de vista da aplicação clínica, essesresultados não são imediatos, nem beneficiarão uma parcela expressiva depacientes. “É preciso tomar cuidado, porque teste genético não é uma panaceia,não é para todo mundo. Os estudos são importantes, indicam a tendência de ostestes ficarem cada vez melhores, mas eles vão beneficiar, por enquanto, umnúmero restrito de pessoas. Quem tem casos familiares e preocupação com ocâncer, deve conversar com seu médico, seu geneticista, que fará as orientaçõesadequadas”, recomenda.

Opresidente do Conselho Técnico-Científico da FEMAMA, Dr. Ricardo Caponero, ressalve,entretanto, que o procedimento ainda não está disponível comercialmente e aindaé considerado experimental.


Com informações de Correio Braziliense, 24/10/2017 


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